Comentários sobre o Movimento Evangêlico

Comentários sobre o Movimento Evangêlico

O Movimento Evangelical contemporâneo é recente, surgiu após a 2ª guerra mundial nos círculos fundamentalistas norte americanos, mas desde o Congresso do Panamá, em 1916 ele já se delineava. Incorporou tendências puritanas, pietistas, avivacionistas e fundamentalistas e alcançou grande crescimento nas últimas décadas, principalmente com a liderança do pastor Billy Grahan, com seu marco internacional no Congresso de Lausane, em 1974, com o Pacto de Lausane e no Congresso de Manila, em 1989. Na América Latina desenvolveu-se através de várias denominações ou líderes fundamentalistas, sua teologia é marcada pela Fraternidade Teológica Latino-Americana, FTL, e os Congressos Latino-Americanos de evangelização, CLADEs. No Brasil, a mais recente expressão do Evangelismo é a Associação Evangélica Brasileira, AEVB.
Com pressupostos teológicos fundamentalistas, o Movimento Evangelical sempre se manteve a distancia do Movimento Ecumênico e até mesmo o combateu ou competiu com ele, pois afirma que o ecumenismo não é ortodoxo nem fiel às Sagradas Escrituras, procuram firmar-se como uma proposta alternativa de cunho conservador e fundamentalista ao projeto do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) a quem sempre criticou e se opôs. Sua teologia tem um enfoque norte-atlântico, sobretudo norte-americano, sem autocrítica e nas questões sociais prefere, quando pratica, o assistencialismo, entendendo a ação social como meio para a salvação das almas ou para comprovar a predestinação.
Algumas organizações paraeclesiásticas, ligadas ou que se identificam com o Movimento Evangelical, que atuam no Brasil: Mocidade para Cristo, Palavra da Vida, JOCUM, ADHONEP, SEPAL, MILAD, Missão Novas Tribos do Brasil… Visão Mundial, Editora Betânia, Editora Vida Nova, Editora Vida, Editora Mundo Cristão, Editora ABU, Editora Abba…
Anotamos algumas características do Movimento Evangelical:
– Puritanismo: anti-romanismo, desprezo com as formas litúrgicas tradicionais e grande preocupação com a postura pessoal, beirando o moralismo;
– Pietismo: importância da piedade pessoal e normatização da necessidade da “conversão” como ato que antecede a justificação;
– Arminiamismo: apropriação individual da graça para a salvação, conversão através de emotivas pregações em praças e ao ar livre;
– Avivamento ou avivacionismo: popularização de campanhas evangelísticas, extremo emocionalismo e introdução das práticas de “apelos” à conversão, do “aceitar Jesus”;
– Fundamentalismo: reação à interpretação critica das Sagradas Escrituras e ao uso do método histórico na exegese. Também se caracterizam pelo milenarismo. Quando afirmam que a Bíblia é infalível, assumem sem questionar a literalidade da narrativa da Criação, Queda, Dilúvio, etc.
– Conservadorismo: Com um discurso anti-socialista, combate à teologia da libertação, e sexista, acentuando o machismo e combatendo movimentos de libertação da mulher e de homossexuais. Compreende as crises econômicas como fundamentalmente religiosas: pecado. Entende a palavra “revolução” como “revolução espiritual do indivíduo”. Divide o mundo entre os “bons” e os “ímpios”, os “renovados” e os “idólatras”… Ênfase, não no ecumenismo intereclesiástico, mas na união de indivíduos “convertidos”…
A partir de documentos básicos como o Pacto de Lausane, as “declarações de fé” de organizações paraeclesiásticas e escritos de seus principais teólogos, podemos selecionar tópicos fundamentais para delimitar o pensamento teológico do Evangelismo contemporâneo:
a – insistência de fazer teologia a partir da doutrina da Inerrância da Bíblia, afirmando que o método histórico-crítico e suas linhas de pesquisa, como a sócio-retórica, não respeita a Revelação, isto produziu uma estranha fusão da inerrância com o sentimentalismo pietista gerando uma leitura a-histórica e que privilegia os efeitos psicológicos momentâneos que o texto produz no leitor ou alguma frase ou situação que permita ao leitor identificar nas experiências relatadas no texto, um paralelo com as suas próprias experiências. É, pois, leitura individualista. Atualmente também há lugar para o literalismo pentecostalista.
“O despreparo quase total diante de regras mínimas de hermenêutica e a ignorância que se verifica em muitos lideres evangelicais em relação ao processo de formação do Cânon e de questões relacionadas à historiografia, à historicidade de certos textos e a procedência de outros, vem revelar que os conceitos de inerrância ou autoridade das Escrituras têm servido muitas vezes de justificativas ideológicas sob as quais pode-se afirmar tudo o que se queira, desde que se encontre algum versículo bíblico que possa ser utilizado como base. Enquanto esse ponto não for trabalhado com honestidade e humildade nos círculos evangelicais, a interpretação da Bíblia se manterá como área de permanente atrito (…)” (Calvani, Rev. Carlos Eduardo. Movimento Ecumênico Contemporâneo – Considerações Históricas e Teológicas. Pág. 10. Instituto Anglicano de Estudos Teológicos, São Paulo: 1996).
b – evangelização proselitista; preocupação com “exorcismos” e curas; ética legalista e visão individualista da santidade com forte preocupação para a sexualidade, criação de associação homofóbicas com o lema, por exemplo: “Deus odeia bichas”, como se o Nosso Deus pudesse odiar; a Exodus, a Moses, etc;
c – “só os que se convertem são salvos”, em geral os evangelicais professam uma “expiação limitada”: Cristo é o Salvador “em potencial de todos”, mas não de todos, pois Sua Salvação só se torna real para os que decidem crer n’Ele e acolhe-los em suas vidas. O Sacrifício de Cristo só é eficaz para os que O aceitam. Esta é, creio, a diferença entre Igreja e seita: a questão da extensão e eficácia da graça: na Igreja, a graça é o que diferencia uma Igreja de uma seita. Na Igreja, a graça é universal e eficaz para todos; na mentalidade sectária, a graça é limitada, restrita apenas aos que permitem sua ação.
Para os evangelicais, a Salvação esta ligada à experiência da conversão. Tudo bem, concordamos, mas esta “conversão” significa seguir determinados padrões morais e sociais… Daí seu esforço para “converter” cristãos que, segundo eles não tem experiências de conversão, como romanos e protestantes históricos, que, segundo eles, estão destinados ao “fogo eterno”, se não se “converterem”… (cf. Chamam-se Cristãos, Serie Lausane nº 9, São Paulo, ABU, 1983, pág. 11). A salvação é uma recompensa. Há ‘regras” e “passos” para a salvação (cf. Como Nascer de Novo, B. Graham, Vida Nova, São Paulo, 1979). Outros falam em “leis espirituais”. Algumas edições do Novo Testamento de bolso, distribuído pelos Gideões Internacionais, trás, em suas últimas páginas, as “quatro Leis espirituais” e a ênfase em datar o dia exato da conversão. À ênfase que os evangelicais fazer ao se opor ao batismo de crianças como ato regenerador, por exemplo, pode ser atribuída a eles mesmos, uma vez que a conversão, para eles, também é um ato induzido, planejado e ritualizado… Se a Salvação é uma recompensa, toda a Reforma não tem sentido e foi inútil… Não negamos a necessidade da conversão, mas sabemos que ela é diária, constante, que ninguém está salvo antecipadamente. A conversão não é uma experiência do passado, mas uma necessidade constante da vida com Deus. A Salvação não está limitada aos estados emocionais do ser humano. Ela é dom e obra de Deus; tampouco ela não é um estado social e ou moral que nos permita julgar o próximo. Não posso a partir da minha “conversão” medir a fé de alguém.
A santificação, para os evangelicais, geralmente é entendida como uma “luta contra o mundo” e contra a carne; antes de ser obra do Espírito Santo. Assim sendo, ela é obra humana, santidade é dar “bom testemunho”.
A sexualidade é “vontade de Deus”, ela representa valores supostamente “divinos” e, portanto, absolutos e objetivos; por isso, tanto empenho em combater formas alternativas de exercício da sexualidade.
O risco de se criar novos códigos morais existe, mas deve ser enfrentado com ousadia, à luz da liberdade que o Evangelho nos oferece em relação a todas as formas de lei. A caridade/amor paulina (cf. 1Cor 13) e o respeito á vida devem permanecer como referenciais para as discussões éticas;
d – pouca preocupação para as estruturas eclesiais tradicionais e, oposição, em alguns casos, feroz, ao ecumenismo, para alguns ele representa o cumprimento das profecias bíblicas de que a apostasia tomaria conta da Igreja antes do fim dos tempos, o CMI desempenha, nesta visão, a função escatológica da “besta que emerge da terra” e conduz as pessoas para a adoração do anti-Cristo. Quando as igrejas Ortodoxas ingressaram no CMI, a distancia aumentou, pois para eles, diálogo só pode haver entre cristãos, desde que “convertidos” e fundamentalmente moralistas, ou seja, entre eles mesmos… Os evangelicais afirmam que o CMI traiu o Evangelho, pervertendo-o e transformando o anuncio da Boa Nova em atividades políticas ou sociais. Quanto à liturgia, a preocupação de um culto mais jovem e moderno, é bom e louvável, mas desprezar a riqueza das liturgias cristãs também é lastimável; compreender a Igreja como associação de indivíduos convertidos é limitar a Igreja de Cristo e seu mistério; eclesiologia geralmente congregacionalista, desprezo da liturgia, e flexibilidade quanto aos ministérios é outra característica dos evangelicais, a Igreja, para os evangelicais é uma associação de “cristãos genuínos”. É incomum que incluam em suas liturgias os Credos Niceno ou o Apostólico. Sua eclesiologia faz com que a Igreja dependa dos indivíduos, e não os indivíduos da Igreja, consequentemente menosprezam também os sacramentos. A maioria das declarações de fé dos evangelicais não faz qualquer menção aos sacramentos. Em suas liturgias, enfatizam a proclamação da Palavra e a excitação musical, girando em torno do eixo: “conversão-santificação-desafio à evangelização”. A dificuldade é que muitos evangelicais não costumam criar laços com suas igrejas-comunidades, apesar de pagar o dízimo, não assumem compromissos duradouros, nem se comprometem com as mesmas, não contribuindo, com continuidade, com seus dons, para que elas sejam melhores;
e – despreocupação com o combate às injustiças sociais, a preocupação é com a ética pessoal e não social. Sua lógica é “converta-se o indivíduo e a sociedade se converterá”. A ética social também é marcada pelo milenarismo: a sociedade mudará apenas “depois do retorno de Cristo nos ares”. Na América Latina, nos anos 80, os evangelicais foram usados por organizações políticas e econômicas de direita para combater a teologia da libertação e a penetração do socialismo nas camadas mais populares. Com o fim do comunismo, eles puderam dirigir sua força para áreas onde se sentem mais a vontade: as “batalhas espirituais”, contra as religiões de matriz africana e seus cultos e contra os direitos das minorias sexuais, por exemplo. A batalha espiritual contra “demônios” que estariam atuando na cultura, na política e na sociedade através do Movimento Homossexual, de movimentos esotéricos como a “Nova Era” ou as religiões afro-brasileiras é conseqüência da orfandade de um inimigo. Eles parecem dar mais ênfase na ação do diabo do que na ação de Deus… Atualmente a AEVB, por exemplo, não inclui em seus artigos de fé, nenhum que trata especificamente de compromisso social, preferindo afirmar o compromisso de interceder pelos lideres da Nação e lembrar-lhes da liberdade religiosa e afirmam sua “autoridade profética”, sem especificar o que isto significa, “estamos envolvidos em guerra constante contra os principados e potestades do mal, cujas expressões visíveis e invisíveis buscam impedir a Igreja de cumprir sua tarefa de evangelização mundial” (artigo 7). Atualmente poderosas organizações homofóbicas e políticas de extrema direita norte americanas financiam a eleição de deputados no Brasil e em outros países da América Latina. Algumas denominações evangelicais elegem políticos (senadores, deputados, prefeitos, vereadores,) que tem se notabilizado por suas posturas do que há de pior na política brasileira. As experiências com eleitos e/ou eleitas para o Conselho Tutelar de Porto Alegre, RS, 2001-2204, quando foram eleitos 80% dos conselheiros ou das conselheiras ligados a igreja Universal do Reino de Deus, foi um retrocesso na política de atendimento à criança e o adolescente.
O Movimento Evangelical no século XX sempre procurou se firmar como alternativa conservadora ao CMI, chegando a marcar suas reuniões na mesma data das Assembléias Gerais deste, como em 1966. O diálogo ecumênico com os evangelicais é sempre um desafio, pelos obstáculos que eles mesmos colocam, pois compreendem que tudo está estabelecido e é imutável. Os evangelicais não vêem o “outro” como interlocutor, mas como pessoa perdida que precisa ser “convertida” e evangelizada de acordo com seus princípios… Ou pior, o outro diferente é até um inimigo que precisa ser destruído. Mas o diálogo sempre é possível, desde que com súplicas ao Espírito, que ilumina todos os corações.
Ou os evangelicais aceitam transformar-se num espaço mais aberto de reflexão teológica e compromisso social, incorporando o ideal ecumênico ou contribuirão ainda mais para a exacerbação do desespero religioso travestido de espiritualidade, fechados para a ação do Espírito Santo de Amor.

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