Os Dons do Espírito Santo de Deus

Os Dons do Espírito Santo de Deus

A liberdade é o mais elevado, o maior dos dons de Deus, sem ela, não podemos ser plenamente humanos. A liberdade está essencialmente ligada com o que nós somos: “imagem e semelhança” de Deus (Gn 1,26-27) é o mau uso dessa liberdade que desfigura esta “imagem”. No entanto, Deus usa Sua Liberdade para nos livrar do poder do pecado e restaurar nossa plena liberdade, porque quando o pecado estragou nossos dons naturais, Deus respondeu com o derramamento de Seu Santo Espírito, com novos e extraordinários dons. Desde então, estes dons incluem e transmitem o perdão dos pecados e recebemos novamente os antigos e inatos dons reabilitados, como eram no Paraíso, e refinados para o uso que Deus deseja que façamos deles.
Em todo o Testamento Cristão (, o Novo Testamento), percebemos como Deus derrama sobre os primeiros cristãos e sobre nós hoje, o Seu Espírito, elevando-nos da confusão e da superstição para ser o Seu povo novo, o novo Israel, da mesma maneira que elevou o Seu Filho Jesus da morte, dando-nos capacidades com dons especiais para equipar-nos “para o trabalho do ministério, para edificar o corpo de Cristo” (Ef 4,12).
O batismo do Espírito Santo é dado à todos os que crêem, com ele vem o revestimento do poder do alto para a vida. É a capacitação de pessoas como nós, a participar da obra de Deus. É o “revestir-se de Cristo”, de que São Paulo fala (Gl 3,27), é compartilhar da Sua (a de Cristo) relação com Deus e também da Sua relação com os outros, na “comunhão dos santos”. Estar envolvido na Obra de Deus, significa, então, ser parte do que Cristo é e do que Ele faz. E isto acontece na nossa vida normal, comum, cada um com seus Dons e torna-se real na medida em que “crescem (…) em Cristo” (Ef 4,15). Essa participação aparece e se manifesta viva na maneira como nós atuamos no mundo. Por isso não é necessário apenas usar as palavras de Paulo, mas o revestir-se de Cristo, estar em Cristo ou ter Cristo em nós, deve se manifestar em nossa vida em relação aos outros…
Quando falamos na “vida em Cristo”, falamos necessariamente na vida no Espírito. Nem a vida em Cristo, nem a vida no Espírito é isolada uma da outra. Uma não acontece sem a outra. Nem a vida pessoal e individual da pessoa na fé acontece sem o envolvimento dela na comunidade, nem a comunidade, a Igreja, acontece sem as pessoas. As pessoas são batizadas na Igreja para a Igreja. A mesma identidade e a mesma esperança são de todos os batizados e de todas as batizadas.
O Espírito Santo é denominado Santo, porque é o Espírito de Deus. Esse Espírito é o modo pelo qual Deus toca as pessoas e dá a Si mesmo para estar com elas. Diz-se que Deus colocou Seu Espírito nelas (Is 63,11). Isto significa que Ele habitou entre nós com Seu poder. O Espírito não é apenas um Dom extraordinário a uma pessoa extraordinária ou um povo extraordinário, ou com vocação extraordinária. O Espírito Santo é o poder de Deus que capacita os seres humanos a viver para Deus e na presença de Deus.
Para São Paulo, o Espírito Santo, em primeiro lugar, não é possessão peculiar de certas pessoas com dons especiais. O Espírito é a vida de Cristo que habita no batizado, na batizada, e na comunidade dos/das fiéis e, ao mesmo tempo em que a instrui, manifesta-se de diversos modos em diferentes indivíduos. Em algumas pessoas, o Espírito Santo pode manifestar-se em êxtase e profecia. Em outros se mostra de outras maneiras: com o dom de cura, de ensino, de conselho, de apóstolo, de hospitalidade, de línguas, de misericórdia, de música, de organização, de discernimento de espíritos, de hospitalidade, de estilo de vida simples… “há variedades de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1Cor 12,4).
Porém, em segundo lugar, o Apóstolo Paulo foi mais longe. Ele afirmou que, em última instância, há um único sinal seguro da obra do Espírito Santo. Esse sinal certo é o amor que une as pessoas em Cristo, tornando-as uma comunidade-Igreja verdadeira, isto é, a comunidade onde o “outro” é afirmado pelos homens e as mulheres, que são “pacientes e bons uns para com os outros, tolerantes e não vingativos, nem vis, desejam o bem e não o mal” (1Cor 13). A obra do Espírito Santo é mais claramente vista onde o “viver como Jesus viveu” é mais claramente percebido entre seu povo…
Quais são estes dons especiais? Existem muitas palavras no grego do Testamento Cristão que podem ser traduzidas por “dom”. Uma delas é charisma, a qual se tornou, feliz ou infelizmente, parte de nosso vocabulário português popular como o significado da qualidade de quem possui liderança e recebe a admiração de grande número de pessoas. Esta expressão, surgida em igrejas pentecostais, é atualmente, aceita também nas igrejas tradicionais. Mas nas Sagradas Escrituras, charisma, e, no plural: charismata, principalmente nos escritos de Paulo, é usada para designar uma particular natureza de dom, um dom muitas vezes descrito como “de Deus” (Rm 6,23; 11,29; 1Cor 7,7) ou “do Espírito Santo” (1Cor 12,4-8). Os tradutores algumas vezes tentam indicar a natureza especial do carisma, adicionando adjetivos qualificativos. Assim encontramos em Rm 5,15 e 6,23, “dom gratuito” e em 1Cor 7,7, “dom especial” e ainda em 1Cor 1,7, “dom espiritual”.
Etimologicamente relacionado com charisma é charis, palavra de mais ampla aplicação e fundamental para entender o que São Paulo quer nos dizer quando nos fala dos dons do Espírito Santo. Normalmente traduzida por graça, charis significa “o completo favor imerecido de Deus”, recebido por meio da Cruz de Jesus Cristo. Charis, graça, é propriedade de cada cristão e de cada cristã (1Cor 1,4) e é a base da salvação (Rm 3,24; 5,20; Ef 2,8). O elemento da perfeita e fundamental liberdade que é dada por Deus (Rm 3,24; 5,15). Para Paulo, “a completude da vida é… uma expressão da graça: tudo é graça e graça é tudo”.
Ele, no entanto, dá ênfase à algumas manifestações da graça aos quais chama de charismata. Pode-se entender com isto que estes dons são dons supranaturais, diferentes de talentos ou habilidades humanas naturais? Paulo, aos Coríntios, escreve: “E que tens tu que não tenhas recebido? E, se recebeste, porque te vanglorias, como se não o houvera recebido?”. Portanto, apesar da intenção de estudarmos os dons extraordinários que Paulo chama de carismas, não concluímos que haja alguma distinta divisão entre eles e os mais familiares dons que denominamos talentos, habilidades, capacidades, aptidões e faculdades; todos eles são dados por Deus e todos são valiosos e devem ser suplicados e desejados, pois são indispensáveis para o “trabalho do ministério, para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4,12).
Várias classificações tem sido sugeridas para os carismas paulinos. Mas nenhuma delas tem aceitação geral. Certamente o próprio Paulo não estava preocupado em estabelecer uma relação sistemática e classificatória. Ele estava escrevendo para uma particular situação em Corinto e, mais tarde, para uma situação em Roma, que ele talvez imaginasse ou soubesse que eram similares.
É interessante observarmos estas quatro principais listas dos carismas encontradas nas Cartas paulinas, notemos que a tradução é bastante literal e as citações são dadas para um melhor estudo:

Lista A: 1Cor 12,8-10:
1- Apóstolos
2- Palavra de conhecimento
3- Fé
4- Dons de curar
5- Operações de milagres
6- Profecia
7- Discernimentos de espíritos
8- Variedade de línguas
9- Interpretação de línguas

Lista B: 1Cor 12,28:
1- Palavra da sabedoria
2- Profetas
3- Mestres
4- Operadores de milagres
5- Dons de cura
6- Socorros
7- Governos
8- Variedades de línguas

Lista C: 1Cor 12,29-30:
1- Apóstolos
2- Profetas
3- Mestres
4- Milagres
5- Dons de cura
6- Línguas
7- Interpretação

Lista D: Rm 12,6-8:
1- Profecia
2- Serviço
3- Aquele que ensina
4- Aquele que exorta
5- Aquele que contribui
6- Aquele que preside
7- Aquele que exerce misericórdia
(Além destas, São Paulo usa charisma nas seguintes passagens:

Rm 1,11: “Porque muito desejo ver-vos, a fim de repartir convosco algum dom espiritual, para que sejais confirmados”. Nenhum particular carisma é mencionado aqui, mas a passagem é importante porque nos fala que alguns carismas podem ser partilhados.
Rm 5,15-16.
Rm 6,23: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, Nosso Senhor”.
Rm 11,29: “Porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis”. São Paulo fala dos dons ou privilégios dados a Israel, os quais menciona no capítulo 9,4ss: filiação, glória, as alianças, a Lei, o culto, as promessas, os patriarcas e o Messias.
1Cor 1,7: “De maneira que não vos falte nenhum dom, aguardando vós a revelação de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Paulo dá graças pelo fato de os coríntios terem sido enriquecidos em Cristo com toda a palavra de conhecimento.
1Cor 7,7b: “Cada um tem de Deus o seu próprio dom; um, na verdade, de um modo; outro, de outro”. Paulo encara aqui a capacidade de permanecer celibatário, como um charisma…
1Cor 12,31: “Entretanto, procurai, com zelo, os melhores dons. E eu passo a mostrar-vos um caminho sobremodo excelente”.
2Cor 1,11: “Enquanto vocês nos ajudam, orando por nós. Assim Deus responderá às muitas orações feitas em nosso favor e nos abençoará; e muitos lhes agradecerão as bênçãos que Ele nos dará”. A benção, que o Apóstolo fala está no texto grego como charis, por isso, alguns comentaristas o entendem como a “graciosa intervenção de Deus” para livrar Paulo do perigo, mas pode ser também a totalidade do dom da salvação.)

Nas listas acima, o apóstolo Paulo falava à circunstâncias especiais, por isso, na lista aos coríntios, a inclusão da “palavra da sabedoria” e “palavra de conhecimento” é uma resposta ao orgulho dos coríntios (cf. 1Cor 1,17, 19-31; 2,1-5, 18-20; 8,1-3). Assim como são as repetidas referências ao falar línguas.
A tríade: “apóstolos, profetas, mestres”, como se dissesse: primeiro, segundo, terceiro, é uma forma de Paulo defender sua própria autoridade. Podemos também perceber uma divisão entre os dons que denotam pessoas, por exemplo, “apóstolos”, “profetas”, “mestres” e aquelas que se referem a funções ou atividades, como, por exemplo, “socorros”, “palavra de conhecimento”, “aquele que ensina”. O termo fé, no entanto, não se situa em nenhum grupo. Consideremos este primeiro.

O carisma da fé

A fé com certeza não se encontra no mesmo nível de “palavra de sabedoria”, “dons de cura”, “discernimento dos espíritos”, e assim por diante, embora Paulo a trate como paralela àquelas em 1Cor 12,8-10. Mas, é unicamente nesta lista que ele a chama de charisma; em outro lugar (Gl 5,22), ele a denomina de “fruto” do Espírito. Em nenhum caso podemos supor que Paulo pensou na fé como mais um dom entre muitos, pois ele a considera um pré-requisito para a realização de milagres (1Cor 13,2), fala da profecia na “proporção da fé” (Rm 12,6) e associa a fé com a misericórdia de Deus e, em conseqüência, com todos os carismas (Rm 12,3).
É importante notar que fé, no NT, nunca significa crença acrítica ou credulidade ingênua. A palavra grega usada para fé é pistis, que também significa lealdade, fidelidade. Por isso Paulo a usa para se referir ao fundamental relacionamento entre Deus e os seres humanos, onde é baseada a nossa salvação, atualizada através da ação reconciliadora de Cristo. É a fidelidade de Deus, revelada em Jesus Cristo, que Paulo chama de “nossa fé”, a qual é nossa porque é um carisma, um dom gratuito. Fé é mais exatamente um dom de múltiplas finalidades, assim como o carisma da salvação (cf Rm 5,15ss; 2Cor 1,11) e a vida eterna (Rm 6,23), as quais estão intimamente relacionadas com ela. Esses carismas são os equipamentos básicos necessários a cada cristão para cada forma de ministério. Esses são os extraordinários dons que redimem e renovam o dom da liberdade, o qual faz parte do ser humano, mesmo que ele não saiba usar. Possuindo esses dons, os cristãos são livres da escravidão do pecado, da indecisão, livres da preocupação egoísta e ansiedade, feitos livres com ações confiantes para a edificação do Corpo de Cristo. Foi o possuir esses dons que fez Paulo dizer “Posso todas as coisas em Cristo, o qual me fortalece” (Fl 4,13). Deus Espírito Santo garante os mesmos dons a nós hoje (2Cor 5,5).
Voltando agora às quatro listas paulinas, vamos considerar os termos que se referem a funções e atividades. Essas podem ser subdivididas naquelas em que temos que fazer por palavra ou linguagem ou naquelas que temos que fazer por atos de serviço.

O dom da palavra

Palavra de sabedoria e conhecimento
“Palavra de sabedoria” e “palavra de conhecimento” são mencionadas como carismas separados (cf 1Cor 12,8), mas não é fácil estabelecer uma distinção entre elas. É importante observar que, para Paulo, nem a sabedoria nem o conhecimento são dons: o que o Espírito comunica é a capacidade, o poder, de transmitir sabedoria e conhecimento a outros. São Paulo deprecia as noções de sabedoria e conhecimento, caras aos coríntios “espirituais”. Sua sabedoria mundana, diz Paulo, é mera loucura para Deus (cf 1Cor 3,9; 1Cor 1,20-25), enquanto seu conhecimento incha (cf 1Co 8,1) e pode gerar cristãos com menos discernimento, aptos a tropeçarem (cf 1Cor 8,11). No lugar da “sabedoria desse mundo”, Paulo proclama a sabedoria de Deus e o poder de Deus, o qual é Jesus Cristo (cf 1Cor 1,24); para ele importa conhecer Jesus Cristo crucificado (cf 1Cor 2,2). Mas Paulo não está condenando o conhecimento especulativo, científico e teórico de maneira geral, mas somente quando são postos como meio de salvação disponíveis a poucos privilegiados (cf 1Co1,21), Paulo condena o apego egoístico ao conhecimento e à ciência. Não é justo ver em Paulo uma espécie de antiintelectualismo.
Para a fé cristã, a ciência e o conhecimento cientifico são indiferentes. Muitos brilhantes cientistas e filósofos devotaram sua sabedoria e conhecimento para o serviço de Cristo e de Seu Reino. Para a fé Cristã, Jesus cristo é o depósito de “todos os tesouro de sabedoria e conhecimento” (cf Cl 2,3; Rm 11,33-36); esses tesouros são as “riquezas insondáveis” (Ef 3,8) proclamadas por aqueles que receberam o carisma da palavra de sabedoria e de conhecimento. Para o crente, sabedoria e conhecimento, consistem primeiro que tudo, em grato reconhecimento dos tremendos atos de Deus em Jesus Cristo, para a nossa Salvação.

Profecia e Ensino
Os dons da palavra são obviamente relacionados com os dons de profecia e ensino e tem envolvimento com educação. Profecia expressa “uma palavra de Deus como tal, enquanto ensina um novo perceber, um novo dar-se conta, dessa mesma Palavra de Deus”. Profecia é o único carisma referido em todas as listas. Paulo enfatiza que profecia é a comunicação de palavras inteligíveis dadas pelo Espírito (cf 1Cor 14,28-30). Em outros lugares na Bíblia Cristã, no entanto, como em Hebreus, profecia é compreendida como que incluindo oráculos predicativos bem como proclamações inspiradas. Paulo valoriza a profecia acima de todos os outros carismas (cf 1Cor 14,1) porque ela, mais do que qualquer outro, eleva a comunidade de crentes na sua fé e em sua vida de comunidade. A profecia edifica porque fala para necessidades particulares: a necessidade pode ser de uma palavra de encorajamento ou exortação (cf 1Cor 14,3 e 31); “exortação” é chamada de carisma separado em Rm 12,8, mas certamente é um outro aspecto de profecia; profecia pode ser também uma palavra reveladora de uma verdade especial (cf 1Cor 14,6), e ela igualmente edifica porque é um “sinal para os crentes” (1Cor 14,22).
Um cristão exercita o carisma do ensino quando ele ou ela expressa alguns aspectos da Palavra de uma nova maneira, maneira que edifica a Igreja. Exemplos disso podem ser vistos no uso que Paulo faz dos ensinos de Jesus (cf 1Ts 4,2-5; 1Cor 7,10ss; 9,14) e especialmente em sua maneira de tratar o AT (Rm 11,15ss; 1Cor 9,8ss; Gl 3,8). Também, esclarecer a Igreja sobre como Paulo abordava a homossexualidade é dom do Espírito Santo.

Glossolalia
O mais controverso dos carismas da Palavra Inspirada é a glossolalia, o falar em línguas (1Cor 12,10 e 28 e 30; 13, 1 e 8; 14, 2 e 4-6 e 9 e 13ss e 18 e 22ss e 39). Pretendo abordar três questões: 1) O que era a glossolalia em Coríntios? 2) O que São Paulo pensava que era? 3) O que dizer sobre glossolalia hoje?
Nós podemos ver e ouvir a comunidade de Corinto somente através dos olhos e ouvidos de Paulo, só sabemos deles o que Paulo nos conta. (cf 1Cor 12,2ss; 14,12 e 23 e 27ss e 33 e 40) Paulo vê o falar em línguas dos coríntios como comunicação inspirada, pois é com outra forma inspirada de comunicação: a profecia, que ele a contrasta. Paulo dizia que, os que falam, oram e cantam em línguas o fazem “no Espírito” e não o fazem “com a mente” (cf 1Cor 14,2ss e 14ss). Para São Paulo, a glossolalia é uma comunicação inconsciente e ele encara essa comunicação como uma linguagem real. Ele se refere a línguas como glossai, que em grego, quer dizer línguas, e ele acredita que elas podem ser traduzidas. A palavra grega para o carisma da interpretação é hermenéia e significa o mesmo que tradução. Mas Paulo não considera a glossolalia como simplesmente o falar uma língua ou línguas estrangeiras em 1Cor 14,10. ele dá a impressão de pensar nela como uma linguagem dos céus (cf Ap 14,2ss), na qual alguém fala não para seres humanos, mas para Deus (cf 1Cor 14,2). Línguas estrangeiras, são “línguas de homens”, glossolalia é “língua dos anjos”…
Mas Paulo não valoriza demasiadamente a glossolalia. Ele a relega a um plano inferior na sua lista em 1Co 12,8-10 e 28 e diz que preferiria falar plenamente cinco palavras com sua mente do que dez mil em línguas (cf 1Cor 14,19). Todavia, ele se gaba de falar em línguas muito mais do que todos os coríntios (cf 1Cor 14,18). Paulo desencoraja o uso irrestrito da glossolalia (cf 1Cor 14,5-12 e 19), mas, desde o reconhecimento de que ela é um genuíno carisma, ele a permite como uma modesta inserção no culto público (cf 1Cor 14,27ss e 39), ainda que ele sinta que ela não seja muito útil no culto (cf 1Cor 14,6-19). De fato, Paulo afirma que a glossolalia é um “sinal para os não crentes” (1Cor 14,22), sinal da distância que os não crentes ainda estão de Deus e, assim como a profecia é um sinal da aproximação do crente para com Deus (cf 1Cor 14, 23 e 25).
A principal razão de São Paulo preferir antes a profecia à glossolalia é pelo fato de ela não edificar a comunidade: “Aquele que fala em línguas edifica a si mesmo, mas o que profetiza edifica a Igreja” (1Cor 14,4). Glossolalia é permitida para quem “fala não para homens, mas para Deus” (1Cor 14,2). Como oração inspirada, a glossolalia edifica o que fala em línguas com uma efetiva experiência de comunicação com Deus (cf Rm 8,26-28).
E a glossologia hoje? Ela é uma manifestação do dom do Espírito Santo. Como Rm 12,6 explica, carisma é uma experiência da graça dada e os que falam em línguas hoje, sentem que receberam uma experiência de graça divina. Ela não é um poder latente ou habilidade que as vezes pode ser demonstrada e ouras vezes não. Como dom do Espírito Santo de Deus, ela pode ser desejada e praticada.
Não se discute se a glossolalia é carisma ou não, mas o quanto ela é necessária para “o aperfeiçoamento dos santos com vistas ao desempenho do seu serviço para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4,12). Paulo diz em 1Co 14,4, como vimos, que as pessoas que falam línguas são desse modo individualmente edificadas. Uma vez que a Igreja é feita de pessoas individuais, a edificação de cada indivíduo é importante para a totalidade da comunidade, e o falar línguas pode ser o símbolo da transição da pessoa da “velha” para a “nova” vida em Cristo Jesus. Falar línguas está associada à oração (cf Rm 8,26ss; 1Cor 14,2). Certa vez alguém me disse: “Quando eu oro a Deus em línguas, eu recebo d’Ele um esclarecimento de muitas coisas em minha mente”. Orar em línguas, segundo outro depoimento, é trazer respostas à mente, resposta que sempre estiveram ali, mas não eram claras ou “eu não as conhecia”. Mas se uma comunidade ficar dividida entre os que oram em línguas e “os que não tem esse dom”, ou se os que têm o dom se sentem ou são olhados como especiais, como uma elite, e os que não a tem, como não “renovados”, ou não “convertidos”, isto pode ser, e é, negativo. Paulo argumenta contra isso na sua metáfora do corpo e seus membros (cf 1Cor 12,12-27; Rm 12,4ss): todo os cristãos tem dons, mas nem todos têm o mesmo dom, e não há dom superior ou inferior, todos são como membros do corpo de Cristo. Se o perigo do orgulho e da divisão é evitado, a glossolalia pode servir para a descontração de um encontro de oração: Deus, e o encontro com Ele, não está restrito à uma forma rígida da estrutura da liturgia, além de provocar um sentimento de reverência e ardente consciência da Presença divina naquele momento, naquele lugar e naquela comunidade.

Interpretação de Línguas
O carisma da interpretação de línguas está ligado ao carisma de falar em línguas, tanto que São Paulo não permite um não ser acompanhado do outro em uma assembléia (1Cor 14.5 e 13 e 26-28). Na visão paulina, somente acompanhada de interpretação é que a glossolalia pode beneficiar a comunidade. Ele insiste nisso para que o dom das línguas não seja apenas um dom, mas um dom para os outros. Mas, o carisma da interpretação ainda permanece entre nós? Sim, pois o interpretar a línguas pode se manifestar de muitas maneiras, com maior busca de Deus e dos irmãos, por exemplo, revitalizando o afeto e os bons sentimentos. Assim sendo, a interpretação de línguas, não é uma simples tradução delas, mesmo que isso possa acontecer, às vezes pode acontecer apenas uma explanação que edifique a comunidade. Mas a Igreja pode testar o dom usando de outro dom: o carisma do discernimento. Diferente da profecia, o carisma de interpretação deve ser precedido do dom das línguas, mas o próprio Paulo nos alerta que é difícil conceber uma racional interpretação do que ele chamou de “ininteligibilidade” (cf 1Co 14,13ss). Quem sabe poderíamos conjeturar que para que um dom esteja presente, o outro necessariamente tem que se manifestar. As vezes, o dom de interpretar línguas tem sido mais eficaz e mais benefícios traz à comunidade como carisma de profecia, do que a interpretação de uma oração. É atraente pensar que um carisma não tem seu completo valor na comunidade sem outro carisma complementar e cooperador. Isso nos lembra que os cristãos não podem exercer seu ministério separados uns dos outros, assim como não podem fazer nada separados de Jesus Cristo (cf Mt 18,19ss).

O dom do serviço

Na lista dos carismas do 12º capítulo de Romanos, Paulo põe em segundo lugar, entre profecia e ensino, um dom para o qual a palavra grega é diakonia. Essa palavra é geralmente traduzida por ministério, mas o termo serviço lhe é mais apropriado, apesar de não ser totalmente satisfatório. Ora, ministério nos lembra ministro, que por sua vez nos lembra, atualmente, membro do clero, um pastor, uma pessoa autorizada a ministrar cerimônias religiosas e ministério nos lembra a função do ministro. Muitas pessoas exercem seu ministério como uma outra profissão, como ser professor, ou advogado, ou cozinheiro. Serviço e, por conseguinte, servo, é totalmente diferente, e nos lembram, atualmente, uma posição inferior e que servir diminui a dignidade de quem serve. Esta é uma visão moderna, mas os gregos, no contexto em que São Paulo escreveu suas Cartas, também partilhavam dessa opinião. Platão, por exemplo, acreditava que a única forma honorável de serviço era o serviço ao Estado.
Os judeus, no entanto, acreditavam que servir um grande mestre, os dignificava, sobretudo o serviço à Deus, podemos perceber a grande honra que tinham os sacerdotes que serviam no templo.
Mas Jesus superou tanto a visão grega quanto a visão judaica com relação ao serviço. Quando Jesus veio como Filho do Homem “não para ser ministrado/servido, mas para ministrar/servir” (Mc 10,45; Mt 20,28; Lc 22,26), Ele reverteu completamente todos os valores humanos precedentes quanto a grandeza, dignidades e estatus social. O que era diminuição da dignidade para os gregos, e para muitos homens e mulheres modernos também, se torna para os cristãos, o único caminho para a grandeza. Para alcançar grandeza e dignidade, o cristão deve tornar-se “servo de todos” (Mc 9,35) e até “escravo de todos” (Mc 10,44).
Jesus veio “para servir e dar Sua vida por resgate de muitos” (Mc 10,45). Assim, o ideal do ministério e do serviço que Jesus coloca diante de nós inclui mais que assistência, ainda que amorosa assistência, destinada ao nosso próximo: ele inclui o sofrer por outros, até morrer por outros, como Ele mesmo fez. “Se alguém me serve, siga-me, e, onde Eu estou, ali estará também o Meu servo. E se alguém me servir, o Pai o honrará” (Jo 12,26). Daí que, servir os outros, o próximo, servir a Cristo e servir a Deus são a mesma coisa. Deus não precisa de nosso serviço, mas Ele providenciou os nossos semelhantes para fazermos isso, e o prêmio do nosso serviço é a comunhão com Ele, o Nosso Deus, Pai e Mãe de Amor.
Ninguém, no entanto, deve servir para merecer, conquistar, esse prêmio, porque esse ministério é um carisma sustentado, dado, pelo Espírito Santo, uma responsabilidade que Deus nos dá como habilidade, oportunidade, responsabilidade e a graça de bem realiza-lo. O ministério, o serviço, por excelência é o ministério da reconciliação, entregue a nós por Deus em Jesus Cristo (cf 2Cor 5,18), mas isso inclui muitas variedades de ministérios correspondendo muitas variedades de carismas (cf 1Cor 12,4-7). A origem divina do ministério, ele pode ser atestado se é um carisma, quando serve às necessidade dos outros e, assim edifica a Igreja. Há muitos exemplos no NT: a coleta de Paulo para a Igreja de Jerusalém (Rm 15,31; 2Cor 8,4;9,1 e 12ss), assim o serviço à hospitalidade, de Estéfanas e sua família, (cf 1Cor 16,15). Paulo fala de seu próprio ministério aos coríntios, pelo qual ele não recebeu compensação (cf 2Cro 11,8), e se refere à totalidade de seu trabalho como um ministério (Rm 11,13;2Cor 3,8ss; 4,1; 5,18; 6,3). Nos Atos dos Apóstolos temos a pregação do Evangelho como um ministério ou serviço da Palavra (At 6,4), e o ofício apostólico descrito como um ministério ou serviço (At 1,17 e 25; 20,24). Em 1Co 12,28, o carisma da assistência está intimamente ligado ao de guia da comunidade. Em Romanos 12,8, São Paulo descreve como devem ser exercidos os dons de serviço e misericórdia. Nos “atos de socorro”, em 1Cor 12,28, podemos entender que está incluído o carisma “dos que compartilham” e “dos que demonstram misericórdia”, mencionado em Rm 12,8. Os que têm o dom de repartir alimentos e posses, devem faze-lo com simplicidade e sinceridade, isto é, sem segundas intenções: “Ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada me aproveita” (1Cor 13,3).
A partilha sem amor é também inútil. Calvino sabiamente comentou: “Assim como nada proporciona mais consolo ao doente ou alguém de outra forma aflito do que a visão de consoladores diligentes e prontos para proporcionar consolo, se, porém, ele observa desânimo na face de quem o está consolando, isso será tomado por afronta”.

O carisma das curas

Curar é claramente uma variedade de serviço ou ministério, mas é um carisma que deve ser abordado separadamente, pois para São Paulo, curar não é um dom singular. Ele nunca fala de um carisma de curar mas sempre em carismas de curas, usando as duas palavras no plural, sempre que as usa (cf 1Cor 12,9 2 28 e 30), o que nos faz pensar que, se existem diferentes formas de enfermidades, existem diferentes formas do dom de curar. Paulo, fala do ser humano como composto de “corpo, mente e espírito ( ) portanto cura, para ele certamente era, como é agora, cura de enfermidades físicas, psíquicas e espirituais. No poder que Jesus deu aos seus discípulos de expulsar demônios (Mc 3,14ss; 6,7) é explicitamente incluído o poder de curar enfermidades (Mt 10,1; Lc 9,1).
No mundo antigo, no entanto, a relação entre doença e pecado era reconhecido tanto por pensadores cristãos e judeus, em conseqüência disso, as várias palavras para cura vieram a ter mais do que um senso estritamente médico e foi aplicada analogicamente a outros campos com sentidos mais amplos, como por exemplo “restaurar”, “fazer inteiro” e “salvar”.
A Bíblia Hebraica apresenta a doença como resultado do pecado e a cura da doença como resultado do perdão de Deus: “Voltai ó filhos rebeldes, eu curarei as vossas rebeliões” (Jr 3,22); “Cura-me senhor, e serei curado; salva-me e serei salvo” (Jr 17,14); “Disse eu, compadece-te de mim, Senhor, sara a minha alma, porque pequei contra ti” (Sl 41,4); “Bendize minha alma ao Senhor e não te esqueças de nenhum dos Seus benefícios, pois Ele é quem perdoa todas as tuas iniquidades e quem sara todas as tuas enfermidades” (Sl 103,2-3).
Portanto, cura, nesse completo e profundo senso, não é menos do que perdão dos pecados. Jesus mesmo afirma isso ao contestar seus críticos após curar o paralítico que foi baixado pelo telhado por seus amigos (Mt 9,1-8; Mc 2,1-12; Lc 5,17-26): “O que é mais fácil dizer: teus pecados estão perdoados ou levanta e anda?”.
O verbo no grego para curar, tanto no sentido literal quanto no figurativo é therapeuein, do qual vem terapia e terapêutico e iashtai, de onde origina-se do ia, de psiquiatria ou pediatria. Nas histórias dos Evangelhos sinópticos das curas de Jesus, no entanto, o verbo sozein é usado 16 vezes. A palavra salvar vem desse verbo, o que quer dizer preservar, proteger de danos e socorrer; por isso, quando os Evangelhos dizem que Jesus curou, eles dizem que Jesus “salvou da enfermidade” e/ou “salvou da possessão demoníaca”. Também há o significado “salvar da morte eterna”, pois em Mc 5,34, Jesus diz “Tua fé te salvou!” e a palavra usada é a mesma (cf Mc 10,52; Lc 7,50; 17,19). Algumas traduções da Bíblia se referem a cura física somente, mas a escolha da palavra pelos Evangelistas no mínimo deixa espaço para a visão de que o poder curador de Jesus e o poder salvador da fé vão para além da vida física.

O carisma do ofício

Algumas funções exercidas por São Paulo e por outros nas comunidades cristãs dos Tempos Apostólicos eram oficiais e com características comuns: duração, autoridade, título, legitimação, posição. E não há duvida de que essas funções oficiais eram carismáticas, pois os que eram escolhidos para tais funções possuíam dons para exerce-las. As funções exercidas por apóstolos, profetas e mestres eram caracterizadas por um ou mais dos elementos oficiais mencionados acima e seus títulos aparecem em duas das listas de Paulo (cf 1Cor 12,28-30). O fato de que todos eles foram atribuídos a Jesus, indica a estima na qual eles foram tidos. Estes ofícios são chamados carismáticos porque eles eram estabelecidos pela ação do Espírito Santo para edificar a Igreja. Isto é obvio, principalmente com profetas e mestres que exerceram a profecia e o ensino. Havia profetas e mestres estabelecidos em Corinto (cf 1Cor 12,28s; 14,29ss) e Antioquia (cf At 11,27; 15,32) e em outros lugares (cf Gl 6,6). Houve também profetas que atuavam de lugar em lugar (cf At 11,27; 15,32).
Profetas não derivam a sua própria autoridade de um carisma de oficio. Porém, era o carisma de profecia, regularmente exercitado, que o definiu como oficio. Qualquer um podia profetizar excepcionalmente ou ocasionalmente, e a autoridade residia no profetizar e não na pessoa do profeta. Qualquer que seja a verdadeira natureza da autoridade deles, está claro que reconhece-los foi tratado com considerável seriedade, porque muito cedo encontramos falsos profetas que tentaram impor sua autoridade diante da credulidade e generosidade das comunidades cristãs.
Os mestres tiveram um caráter mais oficial que os profetas. Isto devido a sua dupla responsabilidade: de interpretar a tradição e transmiti-la. A interpretação da tradição é mais obviamente carismática, aproximando-se do carisma de profecia; mas a transmissão é indispensável à autoridade recebida, principalmente quanto a transmissão dos ensinamentos dos Apóstolos e dos ditos e feitos de Jesus; a importância do ensino correto é enfatizada em Rm 16,17; 1Cor 4,17; 11,2; Cl 1,28; 2,7; 2Ts 2,15;3,6.
À função de apóstolo inclui a de profeta e de mestre. São Paulo usa “apóstolo” em dois sentidos: em 2Cor 8,23; e Fl 2,25 significa “o delegado enviado”, alguém tendo a autoridade de representar a comunidade dele ou dela em outro lugar. Nesse sentido o apóstolo é alguém portador de um oficio e sua autoridade deriva desse ofício; porém não é uma autoridade carismática, pois ela é dada pela comunidade que o apóstolo representa. Em 1Cor 15,7-9, porém, Paulo fala de “apóstolo de Cristo”: estes, ao contrário dos representantes da comunidade, são representantes de Cristo, derivando sua autoridade do Espírito Santo, exemplo em 1Cor 12,28.
Este é o sentido de apóstolo por excelência, e estes constituíram um grupo seleto formado por, primeiro, aqueles que tinham sido chamados e autorizados por “Jesus Cristo e Deus, o Pai”, “não por seres humanos” (Gl 1,1; cf Rm 1,5; 1Co 1,1; 9,1; 15,7s) e, segundo, tinham sido comissionados como missionários a proclamar o Evangelho e serem fundadores de Igrejas (cf Gl 1,17s; Rm 11,13s; 1Cor 3,5s e 10; 9,2; 2Cor 4,1-5) e, terceiro, tinham sofrido por causa do Evangelho (1Cor 4,9; 2Cor 11,23-33; Gl 6,17). Além disso, os apóstolos de Jesus Cristo tiveram um decisivo papel escatológico (cf Rm 11,13-15; 15,15s; 1Cor 4,9).
Paulo exercitou autoridade em Corinto porque ele era o fundador dessa Igreja (cf 1Cor 4,14s; 2Cor 10,13-16) e resistiu a outros que reivindicavam autoridade apostólica em Corinto e zombou deles dizendo serem “superapóstolos” (1Cor 11,5; 12,11) e “pseudo-apóstolos” (2Cor 11,13).
A autoridade de Paulo como apóstolo era inquestionavelmente carismática, uma vez que ela derivava e ele fora chamado pelo Cristo Ressurrecto. Além disso essa autoridade fora validada pelo sucesso do envolvimento dele nas comunidades. Os que experimentaram a autoridade de Paulo, não podiam nega-la, sem negar a própria autenticidade da fé (cf 1Cor 9,1s; 2Cor 3,2s; 11,2).
Paulo, Pedro e outros apóstolos, parecem ter exercitado tudo como dom. Na verdade ele nunca se chama um profeta ou mestre, embora isso esteja incluído em 1Co 14,6. Ele seguramente falou como um profeta quando ele revelou o testamento de Deus relativo à salvação dos judeus cujos corações tinham sido endurecidos para permitir a conversão dos gentios (cf Rm 11,25ss). Realmente, todas as Cartas de Paulo estão cheias de proclamação proféticas para edificar a Igreja, e em 1Co 4,17, onde ele diz explicitamente que ensina.
Porém como um apóstolo, Paulo difere de outros profetas, porque sua autoridade não deriva da presente inspiração, só excepcionalmente, mas de eventos de revelação decisivos do passado. Paulo difere de outros mestres porque a autoridade dele não deriva, como a deles, somente de seu ensino, mas da relação sem igual dele com o Cristo exaltado.
Paulo freqüentemente se descreve como ministro ou servo, diakonos (cf 1Cor 3,5; 2Co 3,6; 6,4; 11,23) e se refere aos muitos ministérios que ele executa (cf Rm 11,13; 15,31; 1Co 3,8s; 4,1; 5,18; 6,3; 8,4; 9,1 e 12s; 11,8). Ele nunca faz reivindicação explicita do carisma de curar ou operar milagres, entretanto ele alude ao que Cristo tem forjado por ele “pelo poder de sinais e maravilhas e trabalhos poderosos” (2Cor 12,12). Mas os Atos dos Apóstolos se referem a ele como operador de maravilhas (cf At 14,19; 19,12; 20,10; 28,8s e ainda em At 13,11; 14,3; 16,26; 19,11; 28,3-6). Paulo, no entanto não leva em conta a importância dos milagres (cf 1Co 1,22-25; 13,2), e, apesar de reivindicar o carisma de falar em línguas enfaticamente (cf 1Cor 14,20), diz que isso tem pouco valor para edificar a Igreja (cf 1 Co 13,1).
Qualquer um dos carismas poderia ser e ainda pode ser, exercitado mais ou menos freqüentemente por qualquer membro da comunidade cristã; mas as necessidades da comunidade resultaram na criação de certos ofícios de natureza mais permanente. São Paulo se refere ao oficio dos bispos e dos diáconos em Fl 1,1. O termo episkopos, quer dizer supervisor e diakonos, servo ou ministro, assim compreendemos que as funções, por um lado, são de guiar e presidir e por outro, são de serviço ou ministério em geral, incluindo ajudar, compartilhar e mostrar misericórdia. Não sabemos se esses oficiais foram designados pelo Apóstolo ou foram eleitos pela comunidade, mas podemos afirmar que eles eram escolhidos porque possuíam o carisma apropriado e como suas funções eram necessárias à existência da comunidade, eles logo foram institucionalizados.
Esses ofícios ganharam grande importância na Igreja posterior. Encontramos listas de qualificações para os que aspiram à esses ofícios, e as qualificações para bispo (cf 1Tm 3,1-7; Tt 1,7-9) e diácono (cf 1Tm 3,8-13), são surpreendentemente semelhantes. Entre elas achamos ecos dos carismas descritos por Paulo, por exemplo, de um bispo é exigido ser mestre hábil, como também um administrador da própria casa. Os bispos e diáconos passaram a exercer as funções de profetas e mestres e foram honrados adequadamente (cf Didache 15,1s).

Carisma de poder

A palavra grega para milagres no NT é dinameis, e no singular dynamis e significa poder. Todas as listas de carismas na Primeira Carta aos Coríntios incluem a habilidade para executar milagres, e Paulo diz que ele executou milagres em Corinto (cf 2Cor 12,12: “…sinais milagrosos, prodígios, atos de poder”.) Mas não somos esclarecidos sobre que tipos de milagres eram, mas como ele se refere a isto como sendo “sinais” que o distinguiam como apóstolo, podemos compreender que era o poder prometido por Nosso Senhor aos apóstolos, pelo Espírito Santo (cf ).
Paulo faz referencia a fé como necessária para mover montanhas ou executar qualquer milagre (cf 1Co 13,1s). As conexões entre fé e milagres também é destacada nos Evangelhos, quase todas elas nas declarações de Jesus: declarações que encorajam a fé (cf Mc 5,36; 9,23s; 11,22ss; Mt 9,28; Lc 17,6), recomendam a fé (cf Mc 5,34; 10,52; Mt 8,10; Lc 7,9; Mt 8,13; 15,28; Lc 7,50; 17,19), ou reprovam a falta de fé (cf Mc 4,40; 9,19; Mt 6,30; 14,31; 16,8; 17,20). A fé para aqueles a quem Jesus ministrou, não a fé de Jesus, era complemento necessário ao exercício do poder de Deus através d’Ele (cf Mc 6,6; Mt 13,58). Como se a fé do que recebia o milagre completava o círculo de forma que o poder podia fluir.
Paulo omite milagre e curas da lista de carismas em Rm 12,6-8, como fez com outro dom, o falar em línguas. Até mesmo em 1Corintios, ele diminui a importância dos milagres (cf 1Cor 1,22-25; 13,2). Talvez porque os cristãos de Corinto estivessem muito preocupados com sinais, como eles fizeram com o falar em línguas. A necessidade de milagres é para trazer a pessoa à fé cristã. É importante lembrar que Jesus mesmo se recusou operar milagres em causa própria e diante de Herodes não se moveu nem o respondeu (Lc 23,8-9). Além disso há o perigo de ser conduzida adoração para o carisma ou o seu possuidor, em lugar do Único que doa o dom, percebemos comumente este equivoco acontecer na Igreja romana, com os mártires e os santos, mas Igrejas “renovadas” também correm esse risco.

O carisma de discernimento

O dom do discernimento (cf 1Cor 12,10) provê meios para testar e avaliar todos os demais carismas, para determinar se realmente o Espírito Santo é a fonte das manifestações. A importância desse dom é óbvia quando nos damos conta que todos os outros dons foram e ainda são passíveis de ser imitados e falsificados. O próprio NT menciona falsos apóstolos, falsos profetas e falsos mestres, e em nosso tempo surgem falsos líderes que, com seus pseudocarismas permitem que eles enganem e desviem milhões de pessoas, tanto fora quanto dentro da comunidade dos cristãos. Todos conhecemos fazedores de milagres, médiuns e superdotados reivindicam possuir poderes milagrosos, alguns até usando o Santo Nome do Senhor. Alguns fenômenos podem ser inconscientes como deliberadamente imitados. O LSD, por exemplo, pode induzir a estados mentais e físicos, que são difíceis de distinguir de êxtases místicos.
No entanto, os cristãos têm o carisma do discernimento porque eles têm o Espírito Santo, fonte de todo o verdadeiro carisma, que só tem sentido em relação aos irmãos e à Igreja.
Nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que é de Deus, para podermos entender as coisas que foram dadas à nós por Deus. E estes dons não são sabedoria humana, mas é sabedoria ensinada pelo Espírito Santo e são interpretadas, como verdades espirituais, por aqueles e para aqueles que possuem o Espírito Santo (cf 1Cor 2,12ss), Dom Maior e comum a todos os Cristãos.
Em 1Cor 14,29, quando São Paulo diz: “Deixe os outros pesar o que é dito”, está claro que este carisma pode ser exercitado ao mesmo tempo por mais de uma pessoa, isto é, por alguns ou todos os que ouvem uma aparente expressão vocal inspirada: era uma convicção compartilhada que a expressão vocal era, ou não era, em acordo com a Mente de Deus. Esta convicção poderia não estar baseada no que nós consideraríamos racionalmente, pois São Paulo diz que “nós temos a Mente de Cristo” (1Co 2,16), e, “eu penso que eu tenho o Espírito de Deus” repete o Apóstolo (1Co 7,40), mas também poderia estar baseada em critérios objetivos que o carisma de discernimento provoca nos seus beneficiários para perceber e reconhecer.
Entre esses critérios está o principio básico teológico enunciado em 1Co 12,3: “Ninguém fala pelo Espírito de Deus, dizendo ‘Jesus é anátema’ e ninguém pode dizer ‘Jesus é Senhor’, senão pelo Espírito Santo”, e em termos similares em 1Jo 4,2ss: “Por isso você conhece o Espírito de Deus: todo o espírito que confessa que Jesus veio em carne é de Deus, e todo o espírito que não confessa Jesus não é de Deus”… Outros critérios são morais e práticos. O exercício de dons autênticos é acompanhado pelo fruto do espírito: “Amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, autocontrole”, ao contrario da “inimizade, discussão, ciúme, egoísmo, divisionismo, glutonaria, inveja…” (Gl 4,19-22; cf Mt 7,15; Ef 5,8-10). Dons autênticos edificam a Igreja (1Co 14,4 e 12 e 26) e contribuem para o crescimento e unidade do corpo de Cristo. O carisma de discernimento não é um dom espetacular, mas essencial no progresso ininterrupto na edificação da Igreja.

Outros carismas

Em nenhuma parte Paulo sugere que pretende exaurir a discussão sobre carismas. Realmente, isso fica claro pelas diferenças entre as listas coríntia e a romana, como também pela menção dele de vários carismas totalmente à parte das listas citadas. Além disso, em nenhuma parte São Paulo sugere que a efusão de dons espirituais fosse limitado à Igreja do seu próprio tempo. Com isso quero dizer que o dinamismo do Espírito Santo de Deus pode estar suscitando outros carismas para outras e novas necessidades de se construir a Igreja atualmente…
Nos Livros escritos por último no Novo Testamento, como também nos escritos da era sub-apostólica, encontramos conceitos de carisma que diferem mais ou menos amplamente desses encontrados nos escritos de Paulo. Percebemos continuidades e novidades nestas idéias posteriores, e acreditamos que estas idéias diferentes são também inspiradas pelo Espírito Santo de Deus.
Muitos Pais da Igreja estão em acordo completo com São Paulo em muitos pontos. Eles são unânimes em afirmar a origem divina dos carismas e a diversidade deles. E a maior semelhança com Paulo está na concessão do carisma com a invocação/oração do Espírito Santo e o oficio de impor as mãos.
“Não te faças negligente para com um (carisma) que há em ti, o qual te foi concedido mediante profecia, com imposição de mãos do presbitério” ou “colégio dos anciãos” (cf a TEB: 1Tt 4,14).
“Eu te admoesto que reavivem o dom de Deus que há em ti pela imposição de minhas mãos” (2Tm 1,6).
No entanto, mesmo que Paulo sempre fale sobre “compartilhar” um carisma (Rm 1,11), se qualquer carisma pudesse ser compartilhado por seu possuidor, porque não o carisma do ofício?
Orígenes (165-255) observou que “Os carismas são determinados por Deus para aqueles que se prepararam pela fé e pela virtude para os receber”. Essa opinião, no entanto, é contestada pelo bispo Leôncio de Jerusalém o qual argumenta que a presença de carismas não é nem mesmo uma prova de ortodoxia, e muito menos de devoção. A própria experiência de Paulo é evidência certamente conclusiva que “o Espírito sopra onde quer” (Jo 3,8).
Há o perigo dos cristãos virem a acreditar em falso ensino e pôr a confiança em líderes ego-centrados ou desviantes. Os carismas podem ser ilimitados, mas o mau uso ou abuso de carismas pode conduzir a divisões e superstições. Exemplos disso podem ser achados em toda a historia cristã…
A existência de falsos carismas não contesta nem diminui a existência de genuínos carismas e se, eles podem ser mal usados, não quer dizer que o bom uso não exista. O conselho de São Paulo é válido hoje como era quando ele deu essa mesma instrução aos tessalonicenses: “Não extinga o Espírito, não despreze a profecia, mas prove tudo e retenha o que é bom” (1Ts 5,19-21).
Os dons do espírito estão conosco hoje, e eles estão com cada um de nós. Eles não são limitados a certos grupos de elites.
Nós devemos trabalhar para termos a nossa Igreja completamente integrada, na qual todos os dons sejam praticados com caridade, esta talvez, Deus queira! seja o diferencial da Igreja da Comunidade Metropolitana! Amém!
Desde que sabemos que é o desejo de Deus integrar e unir a Igreja (cf Jo 17,22s), sabemos que o verdadeiro carisma do Espírito Santo, recebido com fé e usado com caridade apaixonada, não dividirá os cristãos, mas sempre os reunirá de maneira mais íntima. O Espírito Santo “sopra onde quer”. Deus pode enviar Seu Espírito para os de fora da Igreja para os trazer, como fez a Paulo, mas nós temos que buscar e achar o Espírito dentro da Igreja. Nela nós receberemos o Espírito e Seus dons, e seremos feitos santos pelo mesmo Espírito. E assim, para os de fora, nós proclamaremos a Boa Nova da reconciliação que foi dada a nós.
Amém.
 

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