A BONDADE DO ETERNO

A bondade do Eterno
é o que nos leva ao arrependimento

Sandra Mara Oliveira

O capítulo quatorze de Bereshit (Gênesis) descreve uma guerra entre reinos, e Abraão foi envolvido nela.
“Os quatorze reis tomaram todos os bens de Sodoma e Gomorra, e todo o seu mantimento, e se foram. Tomaram também a Ló, filho do irmão de Abrão, que habitava em Sodoma, e os bens dele, e partiram. Então veio um que escapara, e contou a Abrão, o hebreu. Ora, habitava Abrão junto aos carvalhais de Manre, o amorreu, irmão de Escol e de Aner, os quais eram aliados de Abrão. Quando Abrão ouviu que seu parente estava preso, chamou trezentos e dezoito homens treinados, nascidos em sua casa, e perseguiu os reis até Dã.” (Gn 14:11-14)
Os reis que vieram do oriente e do Norte invadiram a Transjordânia, vejamos: “Naquele tempo, Anrafel, rei de Sinear, Arioque, rei de Elasar, Quedorlaomer, rei de Elão, Tidal, rei de Goim.” (Gn 1:1)

Anrafel: o sentido do seu nome é incerto. Ele foi rei do Sinear, as terras baixas de aluvião do sul da Babilônia.
* Aluviões são inundações, e enxurrada. Depósito de materiais orgânicos e inorgânicos deixados pelas águas.
Arioque: Ele era rei de uma cidade do sul da Babilônia, Elasar, localizada entre UR e Ereque.
Quedorlaomer: Rei de Elão. Elão era um país a leste da Babilônia, território dos elamitas. Elão ficava localizado no outro lado do rio Tigre, limitado ao Norte pela Assíria e pela Média e ao Sul pelo Golfo Pérsico. Quedorlaomer aliou-se aos outros três reis, a fim de combater contra os cinco reis da região do mar morto.
Tidal: Sem nome no hebraico significa resplendor ou renome. Com o vocabulário Goim veio associar o território de Tidal, à porção Norte da Síria. Goim indica a idéia de raças pagãs, não judaicas.

Eles faziam parte da coligação dos quatro reis; Anrafel, Arioque, Quedorlaomer e Tidal. Eles combateram um grupo de reis da região do Mar Morto. Sodoma, Gomorra, Adimá, Zeboim e Bela. Os primeiros derrotaram os últimos. (Cf Gn 1:1-11)
No processo de luta, Lót foi levado cativo. Assim o caso torna-se mais grave, pois, nessa captura, Lót revelou-se incapaz de ajudar os que o hospedavam e de dar segurança a sua mulher e suas posses.
“Tomaram também a Lót, filho do irmão de Abrão, que habitava em Sodoma, e os bens, e partiram.” (Gn 14:12)
Abrão se viu obrigado a socorrer Lót, pois o sentimento de solidariedade aflorou, e, ainda mais, ele era o único socorro para seu sobrinho.
“Então veio um que escapara, e contou a Abrão, o hebreu. Ora, habitava Abrão junto aos carvalhais de Manre, o amorreu, irmão de Escol, e de Aner, os quais eram aliados de Abrão.” (Gn 14:13) (Cf Gn 14:14)
Vejamos, que o assalto é empreendido a noite, para melhor surpreender o inimigo. “Dividiu-se contra eles de noite, ele e os seus servos, e os feriu, perseguindo-se até Habá, que fica a esquerda de Damasco.” (Gn 14:15)
Abrão pessoalmente assume o comendo do ataque, como um bom guerreiro; e que maneja com destreza a sua espada. Assim trouxe todos os prisioneiros, os bens foram recuperados, a vitória foi total.
“Assim trouxe de novo todos os seus bens, e também a Lót, seu sobrinho, e os bens dele, e também as mulheres e o povo.” (Gn 14:16)

O objetivo do Eterno é o seguinte: Abrão expulsando os reis do Norte torna-se vencedor dos vencedores, e ele apropria de suas conquistas.
Primeiro: Abrão tomou posse da terra de Canaã de forma mística, ou seja, espiritualmente. (Cf Gn 12:1)
Segundo: Nela implantou os altares de Elohîms. (Cf Gn 12:8) (Gn 13:18)
Terceiro: Abrão confirma seu direito pela terra de Canaã, agora, na força da espada.

Irmãos, temos aqui, um significativo incidente. Lót tinha tomado uma série de mais decisões, e agora merecia um tratamento severo, porém, o Eterno, por meio de Abrão, livrou-o milagrosamente. No capítulo anterior, podemos acompanhar a escolha de Lót pela rica aparência do vale do Jordão, um verdadeiro paraíso. (Cf Gn 13:7-11)
Lót, aproveitou a oferta de Abrão, quando este lhe deu o benefício da escolha da Terra, buscou então desfrutar vantagens da oportunidade que lhe foi oferecida; porém, foi logrado quem acreditava lograr não é o mesmo? O texto deixa bem claro, a maldade dos habitantes de Sodoma, que provocarão, bem próxima sua ruína. “Ora, eram maus os homens de Sodoma, e grandes pecadores contra o Senhor”. (Gn 13:13)
Contudo, por causa da bondade do Eterno, através do seu servo Abrão, as grandes perdas de Lót foram quase completamente revertidas. Mas Lót, não aprendeu a lição. Se Lót não aprendeu, nós precisamos conceber conhecimento de D’us, pois, temos aqui, um poderoso ensino que precisamos adquirir, porque Lót não soube ser agradecido, quando o Eterno usou Abrão e seus servos para livrá-lo das mãos do reis do norte.
A prova disto é o regresso de Lót para Sodoma, após, grande batalha a fim de livrá-lo.

O apóstolo Paulo nos ensina que a bondade de D’us, tem o propósito de conduzir-nos ao arrependimento. Esta ainda é, a melhor maneira de alguém ser levado ao arrependimento.
“Ou desprezas tu as riquezas da sua bondade, tolerância e paciência, ignorando que a bondade de D’us te leva ao arrependimento.” (Rm 2:4)
A bondade é usada duas vezes nesse versículo, dentro do qual devemos incluir todos os demais termos mencionados como: Tolerância (longanimidade) e paciência. Essas duas qualidades fazem parte da manifestação da bondade de D’us.
Bondade no hebraico é rot “hesed”. Durante séculos, “hesed” foi traduzida por misericórdia, bondade e amor de D’us. Em 1927 Nelson Geneck publicou sua tese em alemão, e depois traduzida para o inglês por “Hesed in the Bible”. Suas idéias têm ampla aceitação. Ele teve como ponto de partida o pensamento de que Israel estava ligado a Elohîms por meio de alianças, tais como os tratados dos hititas e de outros povos. Glueck sustentava que D’us é descrito como alguém que se relaciona com Israel basicamente desta maneira. Assim, a “hesed” Divina não era fundamentada na misericórdia, mas na lealdade; em face das obrigações da aliança; uma lealdade que os israelitas também deviam demonstrar. Glueck foi em grande parte seguido por: W.F. Loftihouse (1933) N.H. Snaith (1944), H.W. Hobinson (1946), Ugo Masing (1954) e muitos outros.
Obviamente, D’us está em aliança com os patriarcas e com Israel. Desse modo “hesed” (bondade) pode ser chamada, sem dúvida de: “Hesed da Aliança” (bondade da aliança). Dentro desse mesmo raciocínio está a retidão Divina, seus juízos e sua fidelidade. “Mas faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos.” (Ex 20:6) (Cf Dt 5:10)
O texto ainda sustenta que àqueles que são leais e obedecem receberão “hesed” (bondade), enquanto que os desleais, isto é, os que odeiam-no serão castigados.

Irmãos, graças a D’us que outros discordaram de Nelson Glueck, pois isso não procede. Declarar, que o amor de Elohîms seja simplesmente resultado de uma aliança, de modo algum. A aliança é, o sinal, e a expressão visível do AMOR de D’us.
A primeira aliança, ou seja, a aliança original tem por sinal o “shabat”, que diz respeito ao correr do tempo. (Cf Gn 2:3)
A consagração do tempo, pelo Shabat prevalece, onde podemos ver a insistência dos textos em recomendar sua observância cuidadosa e minuciosa. “Os filhos de Israel guardarão o Shabat, celebrando-o nas suas gerações por aliança perpétua. Entre Mim e os filhos de Israel será ele um sinal para sempre, pois, em seis dias fez o Senhor o céu e a terra, e ao sétimo dia descansou e tomou alento.” (Ex 31:16-17)
A Segunda Aliança, com “Noah” tinha por sinal o arco-íris desdobrado no espaço. “O meu arco tenho posto nas nuvens, e ele será por sinal de haver uma aliança entre Mim e a terra.” (Gn 9:13)
Elohîms não mais destruirá a terra, não haverá mais dilúvio, a vida do homem será protegida. O contrato Divino é cósmico.
Terceira Aliança foi estabelecida com Abraão e sua descendência. A descendência de Abraão carregará o sinal da aliança em sua própria carne. (Cf Gn 17:9-12) (Gn 34:14-25) (Ex 4:24-26) (Ex 12:43-49) (Lv 12:3) (Dt 30:6) (Is 5:2-9)
Assim podemos entender que a tese de Nelson Glueck seja apenas uma pressuposição ilusória que “hesed” bondade e misericórdia do Eterno seja somente por causa das alianças.
Precisamos entender a “hesed” (bondade) do Eterno que está por trás da aliança.

É conveniente olhar a palavra “hesed” (bondade) no seu uso secular, ou seja, entre uma pessoa e outra. Hesed (bondade) é praticada numa relação que eticamente vincula parentes, amigos, aliados, hóspedes e governantes. Aí está, a fidelidade às obrigações implícitas ou explícitas. Podemos concluir que de fato há um relacionamento presente, e o amor quase torna necessário nesses casos, para manter o relacionamento. Porque dissemos que o amor quase torna necessário? Porque, para sustentar um relacionamento “a hesed” (a bondade) é gratuitamente concedida. Alguém está em posição de ajudar o outro, o ajudador o faz dentro da sua própria liberdade, sem necessariamente amar. Podemos citar um exemplo bíblico, que encontra-se no segundo livro de Samuel. (Cf II Sm 2:4-7)
A hesed (bondade) praticada pelos homens de Jabes-Gileade. O cuidado que eles tiveram com o corpo do Rei Saul, foi claramente um ato espontâneo de bondade, sem necessariamente amar. Davi foi informado que: “… foram os homens de Jabes-Gilade que sepultaram a Saul”. (II Sm 2:4b)
O rei Davi envia mensageiros aos homens de Jabes-Gileade para agradecê-los por tamanha bondade.
“Então Davi enviou mensageiros aos homens de Jabes-Gileade e disse-lhes: Benditos sejais vós do Senhor, que fizestes tal benevolência para com o vosso senhor, para com Saul porque o sepultaste! O Senhor use convosco de benevolência e fidelidade, e eu também vos retribuirei este bem que fizeste”. (II Sm 2:5-6)
Porém, irmãos, a hesed (bondade) que o apóstolo Paulo faz referência em (Rm 2:4 e Rm 11:22) não tem origem em nenhuma obrigação de aliança, muito menos no seu uso secular, entre uma pessoa e outra. A hesed (bondade) que Paulo faz alusão no contexto que temos na carta aos Romanos, diz respeito a um pedido de auxílio que apela à providência Divina; porque o ajudador não faz hesed (bondade) dentro da sua liberdade, pois, a tarefa que lhe foi exigida não é compatível com o homem natural. O ajudador precisa receber uma dosagem de hesed (bondade) em face a tantos erros, e misericórdia diante de muitas fraquezas, e tolerância ante a obstinação humana.

Conclusão: o ajudador perde sua liberdade, pois ele não tem condições de realizar uma operação de salvamento de alguém, ou praticar um ato profético em benefício de muitos, sem interesse próprio, se ele não for revestido de: amor, paciência, Fé, humildade e resignação. E essas são características Divinas. O termo “hesed” (bondade) traz em si responsabilidades daqueles que pertencem um ao outro.

Vamos aos exemplos bíblicos.

Primeiro: Quando Labão libera Rebeca para casar-se com Isaque. Labão facilmente poderia ter dito “não”. Todavia, ele reconhece que a hesed (bondade) que ele teria que realizar para com Abrão vinha de D’us. Labão foi obrigado a fazê-lo. Labão não possuía liberdade para dizer não.
“Agora, pois, se haveis de usar de benevolência e de verdade para com o meu senhor, fazei-mo saber; se não, declarai-mo, para que eu vá, ou para a direita ou para a esquerda. Então, responderam Labão e Betuel: Isto procede do Senhor, nada temos a dizer fora da sua verdade. Eis Rebeca na tua presença; toma-a e vai-te; seja ela a mulher do filho do teu senhor, segundo a Palavra do Senhor”. (Gn 24:49-51)

Segundo exemplo: se encontra no livro de Rute. A bela história de Rute, perderia o brilho, a unção, se fosse motivada por obrigações contratuais, ou simplesmente entre amigos. Nós sabemos que Rute, uma jovem viúva, não possuía condições de tamanha bondade para com sua sogra, uma senhora idosa, sem filhos. Aquela mulher idosa, não tinha nada para dar a Rute que pudesse ajudar a construir seu futuro. Rute foi com Noemi por pura hesed (bondade) misericórdia e amor Divino. “Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu D’us é o meu D’us”. (Rt 1:16)
Vejamos que Boaz reconhece como bondade o ato de Rute. (Cf Rt 2:11-12) Boaz chama a ação de Rute de hesed (bondade). (Cf Rt 3:10)

Terceiro exemplo: É o de Raab. A ação de Raab foi de hesed (bondade) para com o povo de D’us. “Agora pois, jurai-me, vos peço, pelo Senhor, pois vos fiz beneficência, que vós também fareis beneficência a casa de meu pai, e dai-me um sinal certo”. (Js 2:12)
Irmãos, naturalmente e legalmente, a lealdade de Raab deveria ser para com o Rei e a sua cidade, e não com os hebreus.
Se você e eu pertencemos ao Senhor, nossa responsabilidade se torna mútua, o que é d’Ele também é meu, o que é meu também é de responsabilidade d’Ele.
Assim, aquele que entender que a hesed (bondade) que estamos praticando em seu favor, é por causa das riquezas e das misericórdias de D’us, e não pela nossa bondade. Portanto, aguardamos que eles sejam compelidos ao arrependimento, pois Paulo diz: “… é a bondade de D’us que te leva ao arrependimento”. (Rm 2:4b)

Depois de toda esta grande operação de “hesed” bondade de Abrão para com Lót, o rei de Sodoma tira espontaneamente as conclusões da vitória de Abrão, e assim ele apressa-se para apresentar-se diante dele, para o ato de rendição. (Cf Gn 14:17)
A vitória de Abrão necessita de uma consagração espiritual. O Rei de Salém (Salém é explicado pela raiz Shalôm que significa: estar em paz, em prosperidade, em saúde e plenitude) encontra-se com Abrão voluntariamente e faz um ato também de rendição. Abrão o recebe-o como ministrante de Él-Éliôn, e oferece-lhe o dízimo de todos os seus bens. (Cf Gn 14:20)
A oferta de Malki-Sédéq constituí-se em pão e vinho, marcando o início de todo AMOR Sagrado. (Cf Gn 14:18) Malki-Sédéq assegura a continuidade das tradições de Noah, Abrão e à religião, o qual Abrão é fundador. Abrão encontra-se apto para exercer suas funções reais e sacerdotais. (Cf Sl 110) (Hb 7:1)
O relato entre as ralações de Abrão com o Rei de Sodoma é interrompida para que Malki-Sédéq consagre espiritualmente a vitória de Abrão. Assim retorna o rei de Sodoma para renunciar aos despojos de guerra e pede em troca dos despojos, as pessoas. (Cf Gn 14:21)
Abrão corta qualquer discussão possível com o Rei de Sodoma, jurando em nome de Él-Éliôn, o criador dos céus e da terra. “Abrão, porém disse ao rei de Sodoma: Levantei minha mão ao Senhor, o D’us altíssimo, o possuidor do céu e da terra.” (Gn 14:22)
Abrão cria uma rivalidade com o rei em generosidade, pois, aproveitar dos bens que lhe pertenceram, seria, pôr-se moralmente em sua dependência. Abrão rejeita até a correia do sapato do rei de Sodoma. “E juro que, desde um fio até a correia de um sapato, não tomarei coisa alguma de tudo que é teu; para que não digas: eu enriqueci Abrão.” (Gn 14:23)

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